Desde o dia 14 de abril, quarta-feira última, o vulcão Eyjafjallajökull voltou à atividade. Localizado no sul da Islândia, está situado em uma região pouco povoada, que conta apenas com propriedades rurais, pequenas vilas e extensas áreas pertencentes a parques nacionais. Nesses últimos dia a imprensa, nacional e internacional, têm dado grande ênfase ao caos aéreo na Europa, causado em decorrência do cancelamento de vôos, em detrimento ao que parece ser o mais imediato: a população local. O evento da última semana colocou o vulcão como centro das atenções de geólogos de todo o mundo, pois ainda não se sabe quando a erupção terá fim, visto que a última, em 1821, durou 2 anos, nem se este é o prenúncio de uma erupção maior em outro vulcão.

Mas, o que tudo isso tem a ver com língua? O islandês, língua oficial da Islândia, é falado por aproximadamente 300.000 mil pessoas. Proveniente do ramo germânico, faz parte da porção escandinava deste, bem como o norueguês, sueco e dinamarquês. Quase metade de seus falantes, 119.000, estão na capital, Reykjavik (lit. ‘baía fumegante’), situada a apenas 120 km da região do vulcão Eyjafjallajökull.

A Islândia possui uma política linguística rígida e hermética, razão pela qual a língua se mantem até hoje praticamente inalterada. Estrangeirismos são evitados, sendo adotados em seu lugar neologismos a partir do próprio islandês. Assim, palavras de uso internacional são adaptadas, numa tentativa de recuperar vocábulos próprios do islandês ou que tenham relação semântica com o termo estrangeiro. Por exemplo, para telefone foi adotada a palavra sími, que em islandês antigo significa fio ou cabo, bem como rádio (útvarp) e computador (tölva). Isso não significa que os islandeses estejam presos à sua língua, pelo contrário. A política educacional do país contempla o ensino de línguas estrangeiras modernas, como alemão, inglês (falado pela maioria da população em um nível quase nativo), dinamarquês, norueguês e sueco, isso já na educação primária, entre os 6 e 16 anos.

Não é utopia pensar que, caso a atividade do vulcão se prolongue ou se intensifique, seja necessária uma evacuação em massa de regiões populosas próximas, o que incluiria a capital. Exagero? Valem lembrar que a própria Islândia é resultado de uma erupção vulcânica e Surtsey, ilha de 1,4 km² a 30 km da costa sul do país, originou-se de uma erupção no fundo do mar, que durou de 1963 a 1967. Outra erupção, ocorrida no vulcão Laki entre 1783 e 1784, foi responsável direta ou indiretamente pela morte, à época, de quase um quarto da população do país.

Eyjafjallajökull, literalmente geleira (jökull) da montanha (fjall) da ilha (eyja), é apenas a ponta do iceberg da imensa bomba relógio sobre a qual está situada a Islândia. Uma atividade vulcânica mais prolongada obrigaria a evacuação de grandes centros, em razão da fumaça altamente tóxica e o perigo onipresente de abalos e destruições que possam ser causados por novas erupções, conforme aponta um recente estudo sobre o assunto.

Ou seja, o país está situado numa região onde, caso fossem considerados aspectos geológicos, não deveria ser habitada. E para onde iriam os islandeses?  Essa é uma questão muita ampla, que não cabe aos objetivos deste blog discutir. O que aconteceria com o islandês? Essa também é uma questão complexa, mas que pode ser trabalhada com hipóteses.

Todas as migrações populacionais acarretam, do ponto de vista linguístico, alguma mudança. Veja bem, mudança. Isso significa que podem ocorrer tanto ganhos como perdas. Nesse caso, pelo fato de grande parte dos islandeses adultos dominarem algum idioma estrangeiro, especialmente outras línguas germânicas, seria altamente provável que, aos poucos, deixassem seu idioma nativo de lado, pois teriam de se adequar ao idioma local, seja ele qual for. Estaria ativada a contagem regressiva para o fim do islandês. Em primeiro lugar, porque passaria a ser apenas uma língua e não mais um idioma (língua oficial de algum país ou região). Em segundo lugar, a não ser que os islandeses nativos se isolem de outras culturas, seus filhos, e filhos dos filhos, ou seja, as gerações seguintes, crescerão em meio a outras culturas, o que dificultaria tanto a manutenção da cultura islandesa, quanto da língua.

Como já colocado, essa é apenas uma hipótese, mas sendo levados em consideração os últimos eventos geológicos ocorridos na Islândia nos últimos dias e, principalmente, aqueles que possam ocorrer nos próximos anos ou décadas, é complicada a tarefa de se pensar na manutenção do idioma de um país que tem menos habitantes que muitos bairros de São Paulo. Logicamente uma ação prioritária deve focar a vida dos próprios islandeses, com o objetivo de minimizar o risco humano. A manutenção da cultura e língua do país, nesse caso, ficariam em segundo plano, mas nem por isso seriam irrelevantes, pois são a marca maior de um povo que ao longo de 14 séculos construiu uma cultura singular, bem como uma língua resistente a maior parte das influências externas, e que hoje é considerada patrimônio pelos islandeses.

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Um comentário em “O perigo mora ao lado

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