Parece muito simples reduzir as gramáticas, sejam do português ou de outros idiomas, a um conjunto de regras inventadas que devem ser seguidas por aqueles que querem falar e escrever corretamente. Ao contrário do que muitos pensam, as gramáticas não foram inventadas.

A primeira gramática de que se tem notícia foi feita para o sânscrito pelo gramático indiano Pāṇini,  que viveu entre 520 e 460 a.C.  Abordava aspectos morfológicos e fonológicos da língua, além de raízes verbais e nominais. De lá para cá, a gramática passou a ser usada como registro formal das línguas, servindo de guia tanto para falantes quanto estudantes.

No caso do português, o primeiro registro data de 1.536, com a Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira. Atualmente, são encontradas nas livrarias inúmeras gramáticas formais (aquelas baseadas na norma culta do português), embora não haja entre elas grandes diferenças. Da mesma forma que Pāṇini e Fernão de Oliveira, os gramáticos de hoje sistematizam o uso da língua formal, estabelecendo padrões e formas de uso para a língua, falada e escrita.

A questão é: por que a língua da gramática do português é tão distante daquela que falamos? Porque nós, que a falamos, somos muitos. Para ser mais exato, 191 milhões, espalhados por regiões que desenvolveram variações da língua, incluíndo-se aí vocabulário próprio, pronúncia, diferentes usos, além da influência de outras línguas. Imagine dar conta de tudo isso em um livro? É por isso que, para se fazer uma gramática, não importa a língua, é necessário estabelecer um padrão, geralmente baseado no uso feito por um grupo ou classe dominante, mas essa é uma discussão que não cabe a esse post.

Da mesma forma, a atualização do uso que se faz da língua não é acompanhado de forma satisfatória pelas gramáticas, embora essa questão tenha uma justificativa. Dentre as várias mudanças que vivemos no uso cotidiano de nosso idioma, é difícil estabelecer quais serão mantidos e aqueles que, como a maioria, são temporários. Isso ocorre bastante com estrangeirismos, por exemplo. Não se pode definir se certa palavra será incorporada ao nosso vocabulário ou se será substituída por outra, do próprio português, ou ainda, se deixará de ser usada.

É importante salientar que uma gramática deve sintetizar o uso da língua por seus falantes, e não o contrário. Além disso, a existência de uma gramática permite aos falantes de uma língua (e àqueles que a aprendem) a compreensão de seu funcionamento, além de fornecer o conhecimento necessário para a melhor compreensão de textos, orais e escritos, bem como maior domínio sobre o que ele mesmo fala ou escreve.

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