A necessidade humana em compilar palavras é bem mais antiga do que se pode pensar. Acredita-se que o primeiro dicionário tenha surgido na Mesopotâmia, por volta do ano de 2.600 A.C., que na verdade apenas listava termos necessários ao cotidiano da época, em escrita cuneiforme. Mais tarde, por volta do século I, os gregos iniciaram então a organização de dicionários que traziam os significados e usos das palavras.

Séculos mais tarde a invenção da imprensa trouxe a possibilidade da produção em massa de dicionários, que desde então passaram a ser o destino daqueles que procuravam saber o significado de uma palavra. Dois ou três significados, às vezes um exemplo de uso. E ponto.

E aqui estamos nós, 4.600 anos após a primeira tentativa da humanidade em compilar palavras. Tudo reduzido a um registro mínimo, o que até então era perfeitamente compreensível considerando a limitação de espaço em razão da impressão.

Então veio a internet, e com ela a possibilidade de criar dicionários online, facilitando a busca e acesso de todos. Agora você lembra de algum dicionário online? O que aparece quando você busca uma palavra nele? Pois é, na grande maioria dos dicionários online o retorno em uma busca traz apenas alguns significados, alguns exemplos de uso (criados por quem os fez), e ponto. Não muito diferente daqueles antigos dicionários que hoje são peças de museu.

Um dicionário online realmente efetivo deveria reunir todas as acepções de uma palavra, por mais extensa que fosse a lista. Por que todas? Porque existem, e as pessoas usam. Além disso, na internet tamanho não é problema. Fora isso, conte-se a resistência à introdução de palavrões, que também fazem parte da língua pelo mesmo motivo: nós os usamos.

A conclusão é simples: a capacidade da internet em compilar informações é bastante subestimada por aqueles que criam boa parte dos dicionários online, deixando de aproveitar o que a própria rede oferece quanto à abrangência de significados e usos das palavras. Mas ainda há salvação, e bons exemplos são como o wordnik, criado pela linguista americana Erin McKean. A idéia de Erin foi compilar todas as acepções possíveis para uma palavra, contando para isso com definições encontradas em diversas fontes na própria internet. Além disso, há longas listas de exemplos de uso das palavras, ou seja, exemplos reais (com links para os mesmos) do termo sendo usado em algum lugar da rede.

Em português temos também um bom representante. O Dicionário Priberam traz um número considerável de definições, além de mostrar ocorrências da palavra pesquisada em sites e até no Twitter.

Esses são apenas dois exemplos de como a rede pode ser usada de forma racional para criar uma nova idéia de dicionário, onde se contemplam todos os usos e acepções, e não apenas aqueles mais comuns. Um lugar no qual a referência de uso seja aquela feita pelos que escrevem, que usam a língua, e não se restrinja a uma frase criada.

Óbvio que a importância de definições formais, bem como usos prováveis (ou seja, os que encontramos na maioria dos dicionários online e impressos), não pode ser descartada, mas deixar de lado a língua em movimento, sendo usada, reformulada e reinterpretada por seus falantes, é renegar a capacidade que as palavras têm de se adequar a diferentes épocas e contextos. No final das contas, somos nós falantes exercendo nosso direito de usar a língua, bem como dar às palavras o rumo que nossa cultura, nossos hábitos tomam como frequente, como usual.

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