Quantas vezes você já ouviu uma pessoa corrigir outra pelo modo que fala? Ou quantas vezes já corrigiu, ou foi corrigido? Mas o que de fato é falar errado? Aliás, existe o “falar errado”?

São muitas perguntas e a resposta para todas elas parte de um pressuposto simples. O que é erro? A vida toda aprendemos que existe uma chamada Norma Culta do Português, aquela que aprendemos na escola, cheia de regras e proibições (muitas vezes sem explicação lógica) e que carregamos pelo resto da vida como modelo a ser seguido. Ao mesmo tempo, é demasiado ofensivo o comportamento geral em relação àqueles que não seguem essas regras, ou por não as conhecerem, ou então pela simples e óbvia constatação de que elas estão muito distantes de nossa realidade de comunicação.

É claro que para haver uma padronização da língua, algo que possamos ter como referência, é necessário um conjunto de normas e conceitos. Por outro lado, há de se entender que tais regras não podem ser anacrônicas, ou seja, que não possam ser adaptadas a diferentes épocas e contextos nos quais são utilizadas.

Levando para a prática, o que você me diz de alguém que fala pra, pras, pro, pros, prum, praí, donde, dum, etc.? Errado? Pois bem, isso é apenas um reflexo do quanto nossa língua é flexível e, mais ainda, de como seus falantes conseguem usar esse atributo para torná-la mais dinâmica, mais adaptada ao ato da fala.

Muitas línguas, como o alemão por exemplo, usam e abusam de sua capacidade de juntar palavras, preposições, advérbios, e por aí vai. E não pense que isso é marca de informalidade, ou apenas utilizado por quem não tem um grande conhecimento da língua. Está no dicionário, nos jornais, revistas e afins. Retomando os exemplos acima:

Português Alemão
donde (de + onde) woher (wo + her)
pra (para + a)* zur (zu + die)
pro (para + o)* zum (zu + der/das)
praí (para + aí) dahin (da + hin)
 *indicando direção

Esses são apenas alguns exemplos que mostram como as línguas permitem tais junções e o uso por seus falantes pode sim legitimá-las, no sentido de criar um novo termo, a ser usado em substituição ou complemento às formas já conhecidas.

Da próxima vez que ouvir um sonoro ‘pros’, pense bem antes de julgar quem fala. Mesmo que inconscientemente, essa pessoa faz uso de um atributo linguístico que uma língua complexa como o alemão já tem como parte de sua gramática.

Toda e qualquer forma de simplificação da comunicação, seja ela oral ou escrita, deveria ser vista com melhores olhos por aqueles que utilizam a língua todos os dias, mas pensam que ela é um veiculo engessado que não pode se adaptar às necessidades e dinamismo de seus falantes.

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