Segundo estudo do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos E.U.A., a cada 14 dias morre uma língua, taxa que tende a crescer nos próximos anos. Assim, das mais de 6.000 línguas existentes atualmente, em 90 anos poderemos ter apenas 600. De acordo com a Unesco, 2.511 correm risco de desaparecer em poucas décadas, sendo 190 no Brasil, em geral por se restringirem a pequenos grupos indígenas ou comunidades isoladas. Cerca de metade das línguas existentes são faladas por comunidades com população inferior a 2.500 pessoas. Também segundo estudo da Unesco, uma língua precisa ter pelo menos 100.000 falantes nativos para conseguir passar de uma geração a outra sem entrar em processo de extinção. 

Ao mesmo tempo, o inglês cresce cada vez mais como língua universal, embora nem todos tenham acesso ao seu ensino, tão pouco à certificação internacional, que já tem em seu alto custo uma barreira socioeconômica. Em países como a China, há quase que uma obsessão com o aprendizado do inglês, que é abertamente visto como meio de sucesso profissional e, principalmente, forma que permite estudantes chineses darem orgulho para seus pais e seu país. O aprendizado de inglês é obrigatório nas escolas chinesas a partir do 3º ano. Curiosamente, a China é hoje o maior país de língua inglesa no mundo (em número de falantes). Atualmente, 2 bilhões de pessoas estão aprendendo inglês, quase 1/3 da população da Terra.

O que uma coisa tem a ver com outra? Tudo. E antes que qualquer professor de inglês levante a voz, vale deixar claro que esse artigo não se coloca contra o ensino da língua, mas convida à reflexão sobre o fenômeno da “Englishmania”. É óbvio que ter uma língua de conhecimento comum, que facilite transações comerciais, o turismo e compreensão mutua entre os mais diferentes povos é hoje uma necessidade no mundo em que vivemos, cada vez mais integrado. Por outro lado, a massificação do inglês como meio de expressar idéias e conceitos acaba por se tornar uma barreira indireta, afetando aqueles que não dominam o idioma. Do ponto de vista linguístico, é triste constatar o reflexo que isso provoca em idiomas com menor relevância no cenário mundial, visto que a longo prazo pode causar a redução da produção cientifica e literária, bem como a restrição dos espaços onde falantes nativos se comunicam em sua própria língua, fator determinante para a manutenção das mesmas.

Pense num cientista tcheco que desenvolve um brilhante trabalho (em seu idioma) que pode conduzir à cura do câncer. Seu empenho não pode ser desprezado pela comunidade cientifica somente pelo fato dele não falar inglês e, assim, não poder expor suas descobertas para todos. É para isso que existem tradutores. Da mesma forma, um estudante de um país qualquer pode ser um gênio em sua área, mesmo que não saiba uma palavra de inglês. E isso não pode ser ignorado, desprezando seu conhecimento apenas porque ele não tem essa habilidade linguística. Lembrem-se que Albert Einstein era disléxico e considerado um aluno mediano na escola. O sistema atual equipara o conhecimento de inglês à inteligência. Grande erro. É provável que Einstein não passasse no TOEFL*. Se você fosse dono de uma empresa, o recusaria por isso?

O aprendizado de inglês, como de outras línguas, é importante para abrir horizontes e expandir possibilidades pessoais e profissionais. Por outro lado, ele não pode ser usado como barreira. Perder 90% das línguas existentes hoje significa enterrar a diversidade cultural que elas trazem consigo. Cada língua é um concepção do mundo e de como as idéias sobre ele são organizadas. Um patrimônio imaterial da humanidade e talvez, por isso mesmo, tão pouco valorizado.

Parte das idéias e dados contidos nesse texto foram extraídos da palestra de Patricia Ryan, que ensinou inglês por mais de três décadas em países árabes, onde acompanhou profundas mudanças culturais e linguísticas. Como já colocado, esse é um convite à reflexão, para que professores e estudiosos repensem o valor e posição do ensino de línguas, mas também atentem para a importância da preservação e divulgação das línguas locais, quaisquer que sejam elas.

*Test of English as a Foreign Language (exame de proficiência do inglês como língua estrangeira)

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